segunda-feira, 21 de maio de 2018

Para refletir...

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Figuras de linguagem

Figuras de Linguagem são recursos do nosso idioma para tornar as mensagens que emitimos mais expressivas e significativas. A divisão das figuras de linguagem é feita da seguinte maneira: de som, de sintaxe ou de construção, de pensamento, de palavras ou de estilo. Vamos estudar isoladamente cada uma delas.
Figuras de Som
  • Onomatopeia – Ocorre quando se tentam reproduzir na forma de palavras os sons da realidade.
  • Aliteração – Consiste na repetição de consoantes.
  • Assonância – Consiste na repetição ordenada de sons vocálicos idênticos.
  • Paronomásia – Utilização de palavras parônimas (significado diferente e pronúncia parecida).
Figuras de Sintaxe ou de Construção 
  • Elipse –  Omissão de um termo que pode ser subentendido no texto.
  • Hipérbato – Inversão da ordem direta dos termos da oração.
  • Anacoluto – Consiste na mudança da construção sintática no meio da frase.
  • Anáfora – Repetição de uma ou mais palavras no início de várias frases.
  • Polissíndeto – Repetição enfática dos conectivos. 
  • Assíndeto – Ausência dos conectivos. 
  • Pleonasmo – Repetição de palavras, em uma mesma oração, que tem o mesmo significado.
Figuras de Pensamento 
  • Eufemismo – Troca de um termo por outro mais leve, com o intuito suavizar uma notícia.
  • Hipérbole – Exagero intencional ao contexto.
  • Antítese – Uso de termos, em uma mesma oração, que possuem sentidos contrários.
  • Ironia –  Utilização proposital de termos que manifestam o sentido oposto do seu significado.
  • Personificação ou prosopopeia – Atribuição de sentidos racionais a elementos irracionais.
  • Gradação – Encadeamento de ideias que pode seguir uma ordem crescente ou uma ordem decrescente.
  • Paradoxo – Refere-se a algo “contrário ao que se pensa”, fugindo do senso comum e até mesmo refletindo a falta de nexo.
  • Apóstrofe – Uso da invocação de algo ou alguém para manifestar algum sentido ao contexto.
Figuras de Palavras
  • Metáfora – Substituição de termos que possuem significados diferentes, atribuindo a eles o mesmo sentido.
  • Metonímia – Substituição de uma palavra por outra próxima. É o uso da parte pelo todo.
  • Catacrese – Atribuição de um “nome” a algo que não possui um nome específico, fazendo referência a outras coisas e objetos.
  • Sinestesia –  Cruzamento de diferentes sentidos humanos. Mistura das sensações.
  • Antonomásia –  Utilização de uma expressão com muitas palavras para se referir àquilo que poderia ser dito com poucos ou apenas um termo.
  • Comparação – Aproximação entre dois ou mais elementos que apresentam uma característica em comum.
Temos ainda os vícios de linguagem que, ao contrário das figuras de linguagem, são palavras ou construções que vão de encontro às normas gramaticais. Geralmente os vícios de linguagem ocorrem por descuido, ou por desconhecimento das regras gramaticais por parte do emissor.
Figuras de Linguagem – Representam realce e beleza às mensagens emitidas.
Vícios de Linguagem – Desconstroem as normas gramaticais.
Alguns exemplos de vícios de linguagem: barbarismo, solecismo, ambiguidade, cacofonia, eco, hiato, colisão, arcaísmo, parequema, prolixidade, preciosismo, plebeísmo, redundância (tautologia), estrangeirismo.
Optei em não colocar exemplos, pois preferi elaborar o exercício abaixo com gabarito. Depois de estudar todas essas informações, identifique  a figura de linguagem presente em cada frase abaixo. Vale lembrar que citei 25 figuras de linguagem. São 25 frases, logo há um exemplo de cada. Bom estudo a todos!
  1. Grande pátria desimportante!
  2. Eles levam um país inteiro nas costas.
  3. Minha prima sempre se achou bonita, linda, deslumbrante.
  4. Sou um mulato nato / No sentido lato (…)
  5. A prova, os alunos, na semana passada, fizeram.
  6. Cuidado: material relacionado a bovinos em frente. Olhe onde pisa.
  7. O Woodstock se apaixonou por uma minhoca. É como se eu me apaixonasse por um saco de ração.
  8. Se o dirigente fosse diligente, não haveria tanto incumprimento de prazos.
  9. No mar, tanta tormenta e tanto dano.
  10. Eu cometi um milhão de erros.
  11. Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
  12. Quebrei o bracinho da tampinha da caneta Bic.
  13. Ela sentiu o sabor frio da derrota.
  14. Segue o seco sem sacar que o caminho é seco.
  15. Ele tem duzentas cabeças de gado em sua fazenda.
  16. Emília espalhou o pó de pirlimpimpim e plim, plim, a mágica aconteceu.
  17. Meu filho não quer trabalhar, nem estudar, nem ser autônomo, nem ser independente.
  18. Ele me sorriu um sorriso pontual.
  19. As folhas bailavam alegremente quando o vento passava por elas.
  20. E a palavra pesada abafa a ideia leve.
  21. Era uma estrela tão alta! Era uma estrela tão fria! Era uma estrela sozinha luzindo no fim do dia.
  22. Meu pai, as leituras deixavam-no acordado a noite toda.
  23. O Poeta dos Escravos morrei na flor dos anos.
  24. Fale mais alto, lá da esquina ainda não dá para ouvir.
  25. Tens casa, tens roupa, tens amor, tens família.
Gabarito:
1. paradoxo 2. metáfora 3. gradação 4. assonância 5. hipérbato 6. eufemismo 7. comparação 8. paronomásia 9. elipse 10. hipérbole 11. apóstrofe 12. catacrese 13. sinestesia 14. aliteração 15. metonímia 16. onomatopeia 17. polissíndeto 18. pleonasmo 19. prosopopeia 20. antítese 21. anáfora 22. anacoluto 23. antonomásia 24. ironia 25. assíndeto
Fonte:https://linguaportuguesa.blog.br/figuras-de-linguagem/

Personificação... vamos estudar?

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O Barril de Amontillado, de Edgar Alan Poe.... boa leitura


O Barril de Amontillado, de Edgar Alan Poe

Conto simples e curto, O Barril de Amontillado, de Edgar Alan Poe, é a narrativa da história de uma homem imbuído do desejo de vingança e de emparedar vivo seu desafeto, Fortunato. O início do conto já dá uma mostra do caráter determinado do narrador: Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato, porém, quando ousou insultar-me, jurei vingança. Essa economia de palavras que por vezes suprime detalhes e descrições acaba por simplificar a narrativa, criando tensão no leitor e surpreendendo-o com a rapidez do desenvolvimento do enredo. Em O Barril de Amontillando o enfoque é dado aos fatos em si e aos condicionamentos psicológicos das personagens. A curiosidade e o envolvimento do leitor com o texto dinâmico fazem com que o conto tenha um "efeito único" quando o enredo chega ao seu clímax. O leitor passa por uma catarse, experimenta os sentimentos das personagens e se identifica com elas.

          O conto nos traz a percepção de que o protagonista se vingará de um desafeto; no meio, há indícios de como será a vingança; no fim, o protagonista exerce sua vingança lentamente. O leitor acompanha a narrativa duvidando do desfecho anunciado exatamente porque é algo extremamente simples e cruel e, no fim, linha após linha o protagonista simplemente deleita-se ouvindo os últimos suspiros de seu desafeto.

Leia o conto na íntegra

Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer idéia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.

Deve compreender-se que nem por palavras, nem por atos, dei motivos a Fortunato para duvidar da minha afeição. Continuei, como era meu desejo, a rir-me para ele, que não compreendia que o meu sorriso resultava agora da idéia da sua imolação.

Tinha um ponto fraco, este Fortunato sendo embora, sob outros aspectos, homem digno de respeito e mesmo de receio. Orgulhava-se da sua qualidade de entendido em vinhos. Poucos italianos possuem o verdadeiro espírito de virtuosidade. Na sua maior parte, o seu entusiasmo é adaptado às circunstâncias de tempo e de oportunidade para ludibriar milionários britânicos e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunato, à semelhança dos seus concidadãos, era um charlatão, mas na questão de vinhos era entendido. Neste aspecto eu não diferia substancialmente dele: eu próprio era entendido em vinhos de reserva italianos, e comprava-os em grandes quantidades sempre que podia.

Foi ao escurecer, numa tarde de grande loucura da quadra carnavalesca, que encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessivo calor, pois bebera de mais. Trajava de bufão; um fato justo e parcialmente às tiras, levando na cabeça um barrete cônico com guizos. Fiquei tão contente de o ver que julguei que nunca mais parava de lhe apertar a mão.

- Meu caro Fortunato - disse eu -, ainda bem que o encontro. Você tem hoje uma aparência notável! Saiba que recebi um barril de um vinho que passa por ser amontillado; mas tenho cá as minhas dúvidas.

- O quê? - disse ele - Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno Carnaval!

- Tenho as minhas dúvidas - respondi -, e estupidamente paguei o verdadeiro preço do amontillado sem ter consultado o meu amigo. Não o consegui encontrar e tinha receio de perder o negócio!

- Amontillado!

- Tenho as minhas dúvidas - insisti.

- Amontillado!

- E tenho de as resolver.

- Amontillado!

- Como vejo que está ocupado, vou procurar Luchesi. Se existe alguém com espírito crítico, é ele. Ele me dirá.

- Luchesi não distingue amontillado de xerez.

- No entanto, há muito idiota que acha que o seu gosto desafia o do meu amigo.

- Venha, vamos lá.

- Aonde?

- À sua cave.

- Não, meu amigo, não exigiria tanto da sua bondade. Vejo que tem compromissos. Luchesi...

- Não tenho compromisso nenhum, vamos.

- Não, meu amigo. Não será o compromisso, mas aquele frio terrível que bem sei que o aflige. A cave é insuportavelmente úmida. Está coberta de salitre.

- Mesmo assim, vamos lá. O frio não é nada. Amontillado! Você foi ludibriado. E quanto a Luchesi, não distingue xerez de amontillado.

Assim falando, Fortunato pegou-me pelo braço. Depois de pôr uma máscara de seda preta e de envergar um roquelaire cingido ao corpo, tive que suportar-lhe a pressa que levava a caminho do meu palacete.

Não havia criados em casa; tinham desaparecido todos para festejar aquela quadra. Eu tinha-lhes dito que não voltaria senão de manhã e dera-lhes ordens explícitas para se não afastarem de casa. Ordens essas que foram o suficiente, disso estava eu certo, para assegurar o rápido desaparecimento de todos eles, mal voltara



costas.

Retirei das arandelas dois archotes e, dando um a Fortunato, conduzi-o através de diversos compartimentos até à entrada das caves. Desci uma grande escada de caracol e pedi-lhe que se acautelasse enquanto me seguia. Quando chegamos ao fim da descida encontrávamo-nos ambos sobre o chão úmido das catacumbas dos Montresors.

O andar do meu amigo era irregular e os guizos da capa tilintavam quando se movia.

- O barril? - perguntou.

- Está lá mais para diante - disse eu -, mas veja a teia branca de aranha que cintila nas paredes da cave.

Voltou-se para mim e pousou nos meus olhos duas órbitas enevoadas pelos fumos da intoxicação.

- Salitre? - perguntou por fim.

- Sim - respondi. - Há quanto tempo tem essa tosse?

- Cof!, cof!, cof! cof!, cof!, cof!

O meu amigo ficou sem poder responder-me durante bastante tempo.

- Não é nada - acabou por dizer.

- Venha - disse-lhe com decisão. - Retrocedamos, a sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz como eu já o fui em tempos. Você é um homem cuja falta se sentiria. Quanto a mim, não importa. Retrocedamos. Ainda é capaz de adoecer e não quero assumir tal responsabilidade. Além disso, há Luchesi...

- Basta! - replicou. - A tosse não é nada, não me vai matar. Não vou morrer por causa da tosse.

- Pois decerto que não, pois decerto - respondi -; não é minha intenção alarmá-lo desnecessariamente, mas deve usar de cautela. Um gole deste médoc defender-nos-á da umidade.

Quebrei o gargalo de uma garrafa que retirei de uma longa fila de muitas outras iguais que jaziam no bolor.

- Beba - disse, apresentando-lhe o vinho.

Levou-o aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e abanou a cabeça significativamente, enquanto os guizos tilintavam.

- Bebo - disse - aos mortos que repousam à nossa volta.

- E eu para que você viva muito.

Novamente me tomou pelo braço e prosseguimos.

- Estas catacumbas são enormes - disse ele.

- Os Montresors - respondi - constituíam uma família grande e numerosa.

- Não me lembro do vosso brasão.

- Um enorme pé humano, de ouro, em campo azul; o pé esmaga uma serpente rastejante cujas presas estão ferradas no calcanhar.

- E a divisa?

Nemo me impune lacessit

- Ótimo! - disse ele.

O vinho brilhava no seu olhar e os guizos tilintavam. A minha própria disposição melhorara com o médoc. Tinha passado por entre paredes de ossos empilhados, à mistura com barris e barris, nos mais recônditos escaninhos das catacumbas. Parei novamente e desta vez fiz questão de segurar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.

- Salitre! - disse eu -, veja como aumenta. Parece musgo nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade escorrem por entre os ossos. Venha, vamo-nos embora que já é muito tarde. A sua tosse...

- Não faz mal - retorquiu -, continuaremos. Antes, porém, mais um trago de rnédoc.

Abri e passei-lhe uma garrafa de De Grâve. Despejou-a de um trago. Os olhos brilharam-lhe com um fulgor feroz. Riu e atirou a garrafa ao ar, com uns gestos que não entendi.

Olhei-o surpreso. Repetiu o movimento grotesco.

- Não compreende?

- Não, não compreendo - respondi.

- Então não pertence à irmandade.

- Como?

- Quero eu dizer que não pertence à Maçonaria.

- Sim, sim - disse -, sim, pertenço.

- Você? Impossível! Um maçon?

- Sim, um maçon - respondi.

- Um sinal - disse ele.

- Aqui o tem - retorqui, mostrando uma colher de pedreiro que retirei das dobras do meu roquelaire.

- Está a brincar - exclamou, recuando alguns passos. - Mas vamos lá ao amontillado.

- Assim seja - disse eu, tornando a colocar a ferramenta sob a capa e tornando a oferecer-lhe o meu braço. Apoiou-se nele pesadamente. Continuamos o nosso caminho em procura do amontillado. Passamos por uma série de arcos baixos, descemos, atravessamos outros, descemos novamente e chegamos a uma profunda cripta


na qual a rarefação do ar fazia com que os archotes reluzissem em vez de arderem em chama.

No ponto mais afastado da cripta havia uma outra cripta menos espaçosa. As paredes tinham sido forradas com despojos humanos, empilhados até à abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três das paredes desta cripta interior estavam ainda ornamentadas desta maneira. Na quarta parede, os ossos tinham sido derrubados e jaziam promiscuamente no solo, formando num ponto um montículo de certo vulto. Nessa parede assim exposta pela remoção dos ossos, percebia-se um recesso ainda mais recôndito, com um metro e vinte centímetros de fundo, noventa centímetros de largo e um metro e oitenta a dois metros e dez de alto. Parecia não ter sido construído com qualquer fim específico, constituindo apenas o intervalo entre dois dos colossais suportes do teto das catacumbas, e era limitado, ao fundo, por uma das paredes circundantes em granito sólido.

Foi em vão que Fortunato, levantando o seu tíbio archote, tentou sondar a profundidade do recesso. A enfraquecida luz não nos permitia ver-lhe o fim.

- Continue - disse eu -, o amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi...

- É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava, vacilante, seguido por mim. Num instante atingira o extremo do nicho, e vendo que não podia continuar por causa da rocha, ficou estupidamente desorientado. Um momento mais e tinha-o agrilhoado ao granito. Havia na parede dois grampos de ferro, distantes um do outro, na horizontal, cerca de sessenta centímetros. De um deles pendia uma pequena corrente e do outro um cadeado. Lançar-lhe a corrente em volta da cintura e fechá-la foi obra de poucos segundos. Ficara demasiado surpreendido para oferecer resistência. Retirei a chave e recuei.

- Passe a mão pela parede - disse eu. - Não deixará de sentir o salitre. Na realidade está muito úmido. Mais uma vez lhe suplico que nos retiremos. Não lhe convém? Nesse caso, tenho realmente de o deixar. Mas, primeiro, quero prestar-lhe todas as pequenas atenções ao meu alcance.

- O amontillado! - berrou o meu amigo, que se não recompusera ainda do espanto em que se encontrava.

- É verdade - respondi. - O amontillado.

Ao dizer isto, pus-me a procurar com todo o afã por entre as pilhas de ossos de que já falei. Atirando com eles para o lado, pus a descoberto uma quantidade de pedras e argamassa. Com estes materiais e com a ajuda da minha colher de pedreiro, comecei a entaipar com todo o vigor a entrada do nicho.

Mal tinha colocado a primeira fiada de pedras quando descobri que a embriaguez de Fortunato tinha em grande parte desaparecido. A este respeito, o primeiro indício foi-me dado por um longo gemido vindo da profundidade do recesso. Não era o gemido de um ébrio. Sucedeu-se um prolongado e obstinado silêncio. Pus a segunda fiada de pedras, a terceira e a quarta. Em seguida ouvi as vibrações furiosas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para me ser possível ouvi-lo com maior satisfação, suspendi a minha tarefa e sentei-me no montículo de ossos. Quando finalmente cessou o tilintar, retomei a colher de pedreiro e completei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima fiadas. A parede estava agora quase ao nível do meu peito. Parei novamente e, elevando o archote acima do parapeito, fiz incidir alguns raios de luz sobre a figura que lá estava dentro.

Uma sucessão de gritos altos e agudos, irrompendo de súbito da garganta da figura agrilhoada, quase me atirou violentamente para trás. Por um breve momento hesitei, tremi. Desembainhei o florete e com ele comecei a tatear o recesso, mas bastou pensar um momento para voltar a sentir-me seguro. Coloquei a mão sobre a sólida construção das catacumbas e fiquei satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede. Respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os como um eco, juntei-me a eles, ultrapassei-os em volume e força. Depois disto, o outro sossegou.

Era agora meia-noite e a minha tarefa aproximava-se do fim. Completara já a oitava, a nona e a décima fiadas. Tinha acabado uma porção da décima primeira e última; faltava apenas colocar e fixar uma pequena pedra. Lutava com o seu peso; coloquei-a parcialmente na posição que lhe cabia. Soltou-se então do nicho um riso abafado que me arrepiou os cabelos. Seguiu-se uma voz triste que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. Dizia aquela voz:

- Ah!, ah!, ah!, he!, he!, boa piada, de fato, excelente gracejo. Havemos de rir bastante acerca disto, lá no palácio, he!, he!, he!, acerca do nosso vinho, he!, he!, he!

- amontillado? - disse eu.

- he!, he!, he!, he!, he!, he!, sim, o amontillado. 
Mas não estará a fazer-se tarde? Não estarão à nossa espera no palácio lady Fortunato e os convidados? Vamo-nos embora.

- Sim - disse eu -, vamo-nos.

Pelo amor de Deus, Montresor!

- Sim - disse eu -, pelo amor de Deus!

Em vão esperei uma resposta a estas palavras. Comecei a ficar impaciente. Chamei em voz alta:

- Fortunato!

Não obtive resposta. Chamei novamente:
- Fortunato!
Continuei sem resposta. Meti um archote pela pequena abertura e deixei-o cair lá dentro. Em resposta ouvi apenas um tilintar de guizos. Senti o coração oprimido, dada a forte umidade das catacumbas. Apressei-me a pôr fim à minha tarefa. Forcei a última pedra no buraco, e fixei-a com a argamassa. De encontro a esta nova parede tornei a colocar a velha muralha de ossos. Durante meio século nenhum mortal os perturbou. In pace requiescat!

Dia do Profissional de Letras... Parabénssssssssssss

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Fonte: https://www.facebook.com/linguaportuguesa07/

sábado, 19 de maio de 2018